O CONTEMPORÂNEO VISTO PELO ECRÃ

Políticas, Culturas, Memórias e Identidades

Autores

  • Carlos Alberto Máximo Pimenta UNIFEI
  • Vítor de Sousa FCT-University of Minho
  • Pedro Rodrigues Costa CECS - Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade
  • Edson Capoano Universidade do Minho

DOI:

https://doi.org/10.32813/2179-1120.2121.v14.n2.a798

Palavras-chave:

dossie

Resumo

            A complexidade do mundo contemporâneo impõe formatações inovadoras na leitura das linguagens que circulam na comunicação social convencional (ou hegemônica), as quais imprimem a necessidade de outras perspectivas de abordagem dos fenômenos socioculturais em emergência.

Desse lugar de partida, o dossiê “o contemporâneo visto pelo ecrã: políticas, culturas, memórias e identidades” se propôs em reunir reflexões que discutam as inseguranças de nossos tempos. “Ecrãs”, na tradução para a língua portuguesa do Brasil, pode ser entendido como tela de cinema, televisão, computador, celular, tablet, etc., o que a transforma em um espaço de circulação de informações, “máquinas de produção de subjetividades”, como sugere Félix Guatari (1982).

Na tradução dessas máquinas de produção de subjetividades aparecem um conjunto de inseguranças, para o bem e para o mal. Inseguranças que “colocam em xeque” a ordem (política, econômica, social, cultural, moral, ética, intelectual, simbólica e subjetiva) estabelecida a partir de um consenso cêntrico “ditado” pela cultura ocidental, mas traz, consigo, o fortalecimento do debate sobre a condição humana.

Dessa premissa, impõe leituras distintas da realidade, em que se abrem perspectivas para outros e novos conhecimentos abafados, calados, omitidos, desprivilegiados, subalternizados, colonizados ou para novas e outras interpretações de distintas formas de linguagem e comunicação social, diante de um modelo hegemônico de desenvolvimento, crescimento e progresso aplicados, com maior ou menor grau, a todos, em escala mundial.

Abrem-se, face às "imposições" dos tempos informacionais e tecnológicos que experimentamos, amplos campos de disputa “dos”, "nos" e “pelos” sistemas de linguagens que afetam dimensões do político, da cultura, das memórias e das identidades, forjando a necessidade de diferentes modos de compreensão do mundo.

Para pensarmos esses contextos em disputa, tomamos como referência a provocação de Sousa (2020) e o destaque em Séquéla (1993, p. 13) que questiona alguns pontos a respeito do nosso tempo: "[...] o poder não existe. A política despolitiza-se, a justiça mediatiza-se, a Igreja prega no deserto, a empresa já não tem poder, e quando a rua se enreda ela enreda-se. A nossa sociedade bipolariza-se, já não entre esquerda e direita, já que não significam grande coisa, mas entre os verdadeiros 'reaças' e os falsos modernos". Tudo isto se repete, dia após dia, nos ecrãs da televisão, das redes sociais, do cinema.

A provocação citada foi replicada por Pimenta (2020) e, posteriormente, por Costa (2020), no sentido de tensionar as certezas do futuro e o medo diante de um mundo “doente”. As perguntas sem a devida resposta se avolumam diante da liquidez de nossos tempos (Bauman, 2008) ou da interferência do não-humano nas dinâmicas concretas do humano (Latour, 2012). Contudo, outros quadros de organização social, mental e simbólica se inscrevem nesse processo – por exemplo a proposta do “bem viver” (Acosta, 2016).

Esses traçados, aparentemente contraditórios, porém instigantes, fomentam reflexões sobre as formas de disputas que organizam as linguagens e comunicações estruturadoras das “crenças” (no sentido de organização das relações em sociedade) racionais (ciência), simbólicas (religiões), políticas (ideologias) e se juntam às dinâmicas em torno de uma determinada cultura.

Há, na base que fundamenta e justifica essa proposição, duas preocupações subjacentes que nos convenceram a instigar pesquisadores, nacionais e internacionais, de línguas ibero-americanas e luso-fônicos, em trazer suas contribuições a este dossiê: (a) a história das relações de colonização; (b) a necessidade de descolonização.

Os exercícios anunciados caminham no sentido de desenvolver um interconhecimento de Portugal e do Brasil enquanto países de língua portuguesa, marcados por um passado colonial comum, para além de promover o desenvolvimento da cooperação científica, cultural e artística entre os seus povos, ampliado para os países africanos de língua portuguesa. Podemos destacar que esses movimentos perpassam pela integração da problemática da memória social e das identidades transculturais, com as migrações entre os dois países como pano de fundo.

Os textos que compõem o dossiê trabalham com temáticas contemporâneas e assumem um caráter interdisciplinar (teórico e empírico), por meio de interfaces que implicam questões no campo da política, cultura, memórias e identidades. Sintetizam preocupações com as linguagens no sentido de “revelarem” o surgimento de inúmeras formas de desenvolvimento, ambiental e econômico, em outras bases de organização sociocultural.

“As marcas do luso-tropicalismo nas intervenções do Presidente da República português (2016-2021)”, abre o dossiê apontando as consequências da política do Estado Novo português em relação aos então territórios “ultramarinos” para legitimar o colonialismo e, consequentemente, mantém o mito da tolerância racial e do nacionalismo integrador e universalista.

Em “reflexões sobre o Brasil colônia: as escolas de samba e algumas histórias que a História não contou”, enfatiza-se a relação cultura e desenvolvimento na perspectiva de questionamentos sobre a história colonial brasileira, a partir de manifestações culturais de carnaval, desencadeadas por determinadas escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, em especial os desfiles da G.R.E.S Paraíso do Tuiuti, (2018) e da G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira (2019).

“Margarida Cardoso e as mulheres da Casa-Grande: reconfigurar a memória (pós)colonial a partir da branquitude”, apresenta a obra de Margarida Cardoso como parte de um movimento global da arte portuguesa contemporânea que visa refletir sobre o presente à luz de um passado recente, no sentido de ultrapassar um evento silencioso e silenciado que marcou a sociedade portuguesa desde os anos 1970 até à década de 1990 dentro das ideias de branquitude e de fragilidade branca.

No artigo “um narcisismo colonial: implicações históricas nas tecnologias de vigilância”, propõe-se refletir sobre a interferência dos legados de colonialidade nas tecnologias de vigilância no espaço pós-colonial europeu, argumentando que estes instrumentos implicadas e comprometidas com os contextos histórico, político, social e cultural da ordem hegemônica.

Por sua vez, em “dilemas da ciberdemocracia: em qual medida o ciber potencializa a democracia?”, há uma interpretação dos efeitos sociais da ciberdemocracia, na sociedade contemporânea, por meio de identificação dos possíveis danos democráticos vinculados ao uso das redes sociais como plataforma de dissipação de discursos. Apresenta o argumento de que muitos indivíduos se utilizam das redes sociais e desconhecem sua estruturação, atenuando problemáticas do convívio democrático, bem como o espaço da e-democracia não se traduz em, apenas, benefícios.

Dentro dessa dinâmica, a análise elaborada no “Wikipédia em língua portuguesa: dinâmicas, estruturas e dilemas na colaboração para o conhecimento”, expõe a realidade da plataforma Wikipédia em língua portuguesa. Trazem alguns casos que demonstram o quotidiano desta comunidade colaborativa, retratando os desafios inerentes à função de edição e difusão de conhecimento em regime enciclopédico, livre e colaborativo para, no final, considerar que as forças superam as fraquezas deste processo colaborativo, sem deixar de reconhecer a existência de disputas poder, sombras aos objetivos altruístas deste projeto enciclopédico.

No artigo “zoom out / zoom in às redes sociais digitais do Plano Nacional de Cinema: um visionamento em tempos pandêmicos", vê-se uma elaboração sobre o interesse pelas potencialidades do cinema à educação a partir do Plano Nacional de Cinema de Portugal (PNC), enquanto um programa governamental junto do público escolar. Acredita-se que algumas ferramentas da web social, como as redes sociais digitais, podem ser instrumentos de trabalho válidos para as iniciativas do PNC, numa virtualização complementar da sua presença física nas escolas.

Do debate em “Resistência à intermediação pelos ecrãs/telas conectadas” emergem as lógicas tecno-econômicas que organizam as relações sociotécnicas das plataformas sociais digitais. A análise recai sobre temas como: motivação para escolha de voto; cobertura da imprensa sobre o movimento Black Lives Matter; covid-19. Salienta que houve resistência em relação às notícias da imprensa, opiniões de influenciadores ou resultados das discussões em grupos de redes sociais, por parte dos consumidores de informação.

O argumento “do subúrbio para a periferia: o suburbanismo fantástico contemporâneo, uma nova ambientação do subgênero cinematográfico?” tensiona o tratamento cinematográfico de Angus McFadzean (2017), tomando como base os filmes A Gente se Vê Ontem (See You Yesterday, Stefon Bristol, 2019) e Vampiros x The Bronx (Vampires x The Bronx, Osmany Rodriguez, 2020). Explicita que estes filmes representam um ciclo fechado do suburbanismo fantástico e podem ser caracterizados como resposta pontual de Hollywood a movimentos sociais como o #OscarSoWhite e o #BlackLivesMatter, mas, também, sensibilidades modernas sobre a representatividade e participação de novos corpos na indústria cinematográfica.

O dossiê se encerra com o artigo “olhares netnográficos sobre cultura, desenvolvimento e ações coletivas no vale do paraíba”. Na articulação textual, entende-se cultura como instância ativa da formação social e base ao desenvolvimento regional, apontando à necessária elevação da ação sociocultural ao status de consciência política, visto que se constitui como força de resistência e transformação.

Na sequência, na seção ensaio, segue o texto “pedagogia do cinema na escola: a prática audiovisual como construção social e de ensino” e problematiza a escola brasileira na sua relação com a produção audiovisual, no sentido de que a escola repense suas práticas excludentes que perpetuam uma monoculturalidade hegemônica e busque novo olhar (identificando e valorizando) diferentes culturas entre os alunos. O cinema, enquanto recurso pedagógico, tem potencial para contribuir ao enfrentamento de temas como: diferenças; diversidades; novas linguagens pluriculturais.

Fecha o dossiê, na seção resenha, a proposição de leitura do livro de “Tarde, G. (1978 [1890]). As leis da imitação. Porto: Rés Editora”. O autor ao revisitar a obra, escrita de 131 anos de existência, repara uma lacuna às Ciências Sociais que pouco priorizou as discussões contidas nas teorizações de Tarde. Revisitar este clássico é, ainda, uma possibilidade de debruçarmos sobre as semelhanças e cópias da imitação sugeridas no livro, mas, também, atualizarmos a amplitude das imitações produzidas, divulgadas, circuladas em contextos e linguagens tecnológicas de comunicação social e de pandemias.

Nos resta, na condição de editores, desejar boas reflexões e excelente leitura.

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Biografia do Autor

Carlos Alberto Máximo Pimenta, UNIFEI

Professor Associado II e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade da Universidade Federal de Itajubá.

Referências

Acosta, A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Editora Elefante, 2016.

Bauman, Z. (2008). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar.

Costa, P. R. (2020). A imitação do medo e a síndrome de um “mundo doente”. Minho Digital. Recuperado de: https://www.minhodigital.com/news/imitacao-do-medo-e-sindrome

Guattari, F. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 1992.

Latour, B. Reagregando o social: uma introdução à teoria ator-rede. São Paulo: EDUSC, 2012.

Pimenta, C. A. M. (2020). Como será o amanhã? Communitas Think Tank –Ideias. Recuperado de: http://www.communitas.pt/ideia/como-sera-o-amanha.

Séguéla, J. (1998). O futuro tem futuro. Lisboa: Publicações Europa-América.

Sousa, V. (2020). “O passado tranquiliza, o futuro mete medo”: Reflexões sobre o impacto social da pandemia da Covid-19, a partir do livro O Futuro tem futuro, de Jacques Séguéla (1998). Communitas Think Tank –Ideias. Online: http://www.communitas.pt/ideia/o-passado-tranquiliza-o-futuro-mete-medo

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Publicado

2021-08-09

Como Citar

Máximo Pimenta, C. A., de Sousa, V., Costa, P. R., & Capoano, E. (2021). O CONTEMPORÂNEO VISTO PELO ECRÃ: Políticas, Culturas, Memórias e Identidades. Revista Ciências Humanas, 14(2). https://doi.org/10.32813/2179-1120.2121.v14.n2.a798

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